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O que significa para o Brasil ocupar o 2º lugar no ranking mundial de juro real?

Renata Nunes Por Renata Nunes
18/09/2025
Em Análises, ECONOMIA, Economia POP, NACIONAL

O Brasil aparece na 2ª colocação do ranking mundial de juro real, atrás apenas da Turquia, segundo levantamento mais recente da Money You e Lev Intellignece. Com a manutenção da taxa de juros, o país mantém um dos maiores diferenciais de juros do mundo, com impacto direto sobre o custo de capital, o câmbio e o apetite por risco no mercado.

Além disso, o estudo compara a posição brasileira em termos nominais, em que o país ocupa a 4ª posição, com outras economias emergentes e desenvolvidas. Por outro lado, há uma dispersão relevante entre países com juros reais positivos e aqueles com juros reais negativos, ilustrando diferentes estágios do ciclo monetário global. Enquanto isso, a manutenção da Selic em nível elevado ajuda a ancorar expectativas, mas prolonga a restrição financeira.

Top 5 países em juros reais

PosiçãoPaísJuros Reais (Ex-ante)
1ºTurquia12,34%
2ºBrasil9,51%
3ºRússia4,79%
4ºColômbia4,38%
5ºMéxico3,77%

O que é juro real e as diferença entre o juro nominal?

Roberto Dumas, mestre em Economia, explica que o juro real nada mais é do que a taxa nominal descontada da inflação. “Por exemplo, o juro nominal da Selic hoje está em 15%. Se a gente assumir que a inflação esteja em 5%, o juro real está em cerca de 10% no Brasil”, explica. Nesse sentido, embora a Selic nominal esteja em 15%, é o juro real que mostra de fato o peso para consumidores, empresas e investidores.

Essa diferença é relevante porque enquanto o juro nominal mede apenas o patamar fixado pelo Banco Central, o juro real considera a perda do poder de compra pela inflação, refletindo de maneira mais precisa o custo do crédito, a atratividade dos investimentos e a posição do país no ranking global, onde o Brasil aparece na 2ª colocação.

Por que o Brasil segue entre os maiores juros reais?

Para Dumas, o fato de o Brasil ocupar a segunda posição no ranking mundial de juro real está diretamente ligado à falta de credibilidade no endereçamento da dívida pública. Ele explica que, diante da perspectiva de déficits primários recorrentes e de um custo de carregamento da dívida superior ao crescimento econômico, a trajetória fiscal se torna insustentável.

“Nossa dívida pública, que hoje gira em torno de 78% do PIB, deve encerrar o ano próxima a 80%”, afirma. Dumas lembra que, embora países como Estados Unidos e Japão tenham dívidas proporcionalmente maiores, eles possuem histórico de maior credibilidade junto aos credores, ao contrário do Brasil. “Quantas vezes eles deram calote? Quantas vezes nós demos calote da dívida pública? É por isso que quando o governo gasta mais, a gente pede mais juros para emprestar dinheiro para o governo“, explica.

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Como está a fotografia global de juros reais?

  • Top 5 juros reais (ex-ante): Turquia, Brasil, Rússia, Colômbia e México.
  • Brasil: 2ª posição em juros reais; 4ª posição em juros nominais.
  • Juros reais negativos: grupo inclui países europeus e asiáticos com inflação projetada acima das taxas nominais.
  • Médias: a média geral dos juros reais é baixa quando comparada aos outliers do topo, refletindo ciclos monetários distintos.

Além disso, a heterogeneidade entre emergentes é grande, alguns seguem em aperto monetário para ancorar expectativas, enquanto outros já transitam para estágios neutros ou de afrouxamento.

Qual a implicação prática para o investidor?

Roberto Dumas destaca que manter uma das maiores taxas de juros reais do mundo tem impacto direto sobre os investimentos produtivos, já que encarece o crédito e reduz a disposição das empresas em expandir sua capacidade. No entanto, segundo ele, essa é justamente a intenção do Banco Central, conter a demanda agregada e reduzir o hiato positivo do produto. “Estamos tentando crescer mais do que a economia suporta. O crescimento está acima do PIB potencial e isso inevitavelmente gera inflação”, explica.

Para ilustrar, Dumas compara com a escassez de oferta diante de uma demanda elevada. “Se você não está com fome, um Big Mac custa X. Mas, se eu te deixar 24 horas sem comer, você pagará muito mais por ele, porque sua demanda supera a capacidade de oferta”. Nesse contexto, o juro elevado funciona como instrumento para esfriar a economia e limitar pressões inflacionárias.

Quais números merecem atenção imediata?

  • Brasil em 2º no ranking de juros reais: sinal de prêmio alto e política contracionista ainda vigente.
  • Brasil em 4º no ranking nominal: reforço do custo financeiro doméstico.
  • Distribuição global: maioria dos países manteve juros; minoria elevou ou cortou no recorte mais recente.
  • Diferencial de juros: segue favorável ao real, mas sensível a choques externos e ao quadro fiscal.

O que observar a seguir?

Além de inflação corrente e núcleos, o foco recai sobre expectativas no horizonte relevante, dinâmica de serviços e sinais do fiscal. Nesse sentido, avanços em âncoras de médio prazo tendem a reduzir o prêmio exigido pelo mercado e abrir espaço para convergência de juros. Por outro lado, incertezas externas, energia e geopolítica, podem atrasar a melhora das condições financeiras.

Em suma, a posição do Brasil no ranking global reforça o diagnóstico de juro real elevados e do trade-off entre ancoragem inflacionária e custo de financiamento. Enquanto isso, a calibragem fina da política monetária seguirá dependente de dados e da trajetória de credibilidade fiscal, fatores que, juntos, determinarão a velocidade com que o país poderá descer a escada dos juros sem comprometer a estabilidade de preços e a confiança do mercado.

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